Segunda-feira, 30 de Agosto de 2004

Nas mãos de quem?...

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Contam que existia numa aldeia situada nas montanhas, um ancião muito sábio e justo. As suas palavras eram tidas em consideração por todos e diziam-no também capaz de ver coisas que muitos não viam. Um jovem que acreditava ser mais inteligente do que este ancião, decidiu desacreditá-lo e pensou para si:


"Apanharei uma pequena ave que caiba nas minhas mãos e apresentar-me-ei perante ele e lhe direi: Tu que tudo sabes, diz-me o que tenho nas minhas mãos. Ele me responderá que se trata de um pequeno pássaro e eu lhe responderei: Dizes bem. Agora diz-me se está vivo ou se está morto. Se me responder que está vivo, só tenho de fazer um pequeno movimento com as mãos para lhe torcer o pescoço e apresentá-lo morto, se me disser que o pássaro está morto, só tenho de abrir as mãos e permitir que voe em liberdade. Assim, cairá no ridículo e ficará tão envergonhado que não tornará a falar.


E pôs o plano em acção. Com o passarinho nas mãos, apresentou-se perante o povo e o ancião e disse-lhe:
- Tu que sabes tudo, diz-me: O que trago preso entre as mãos?
- Tens um pequeno pássaro. - respondeu o ancião.
- Dizes bem. Agora diz-me: Está vivo, ou está morto?
O ancião, levantou o olhar até encontrar os olhos do jovem atrevido e respondeu:


- Essa decisão está nas tuas mãos!


Chegou-me hoje esta mensagem ao email. Estava em espanhol e li-a pouco depois de ter lido a newsletter do Correio da Manhã que recebo diariamente. A primeira notícia falava da proibição do Governo à entrada do Barco do Aborto em Portugal. Parece-me que esta questão do aborto está encalhada há algum tempo. Ninguém parece realmente interessado em esclarecer esta questão e o que está realmente implicado. Uns são associações pró-aborto que falam do direito da mulher à decisão... Outros são partidos políticos que só parecem realmente interessados em seguir a estratégia que possibilitar angariar mais votos... E temos também entidades que estão contra o aborto de entre as quais, algumas, usam argumentos algo rebuscados.


Antes de continuar, deixem que vos diga que sou contra o aborto. Podem chamar-me nomes, que eu não mudo de opinião. Não coloco dúvidas ao valor que todos damos à vida humana. E não só. Mas há coisas que ainda não vi reflectidas com clareza.


1. Sem entrar no quadro jurídico dos contratos de casamento (porque não faço a mínima ideia de como poderia fazer isso), tenho sérias dúvidas quanto à decisão caber inteiramente à mulher. Legal, ética e moralmente. Uma criança só é gerada com a intervenção de um homem e uma mulher. Se para gerar, é preciso esta combinação, para abortar não seria de requerer o mesmo? Além disso, há também uma decisão que tem de envolver a sociedade como um todo... Ou tornar-se-iam ridículas certas leis em favor da preservação da vida humana (como as leis contra a pena de morte). Isto, se estivermos a falar de uma vida desde o primeiro momento, mas lá chegaremos adiante...


2. Os termos são muitos (embrião, feto, etc.), mas a partir de que momento existe uma criança? Depois de atingir determinadas proporções físicas? Tenho ouvido e visto coisas que só me deixam mais confuso. Toda a gente fala de despenalizar o aborto, para tornar mais seguro e controlado aquilo que já é feito um pouco por todo o país, embora às escondidas. Concordar com a despenalização e concordar com o aborto - dizem - são coisas diferentes. Coisas diferentes que, com o tipo de campanhas que têm vindo a fazer, só diferem no nome. Fala-se de liberalizar o aborto até aos 3 meses. Porquê os três meses e não mais tarde? É depois dos três meses que "a coisa" se transforma em "criança" e por isso, até aí não estamos a destruir uma vida? É porque depois disso a vida da mãe é colocada em risco? Assumimos, portanto, que há vidas que valem mais que outras vidas... Ou que o feto não é, na verdade, uma vida...


3. Quais são as razões que levam ao aborto? Difícil situação financeira? Desejo de progressão na carreira por parte da mãe? Não ter família constituída? Ser vítima de violação? Risco de deficiência?... Conheço muitas histórias de famílias que, detectada a deficiência, decidiram não abortar. Tenho uma prima de 21 anos que nasceu com Trissomia 21, detectada durante a gravidez. A minha amiga Carla também foi informada pelo médico que a filha nasceria com Trissomia 21 e, com o marido, decidiu ter a criança. São apenas dois exemplos, de entre muitos que até podem encontrar publicados na Internet, de crianças que estão a crescer felizes e que mudaram completamente a vida de todos os que estão à sua volta. Para melhor. Em Angola, conheci um homem que é fruto de uma violação. O pai era português e a mãe trabalhava para a família dele. A mãe permitiu que nascesse. Quando rebentou a gerra colonial, a família teve de escondê-lo nas matas porque a guerrilha matava todos os mulatos que encontrava: filho de cobra, é cobra - diziam. Hoje, tem cerca de 40 anos de idade, nunca conheceu o pai e cresceu com as mesmas condições que quaisquer (dos muitos) orfãos de guerra tiveram e é respeitado pela comunidade de que é responsável. Há muitas razões para se considerar a hipótese de aborto. E quantas haverá para decidir não abortar?


Tanto, e tão pouco espaço, para dizer... O que é que a história do passarinho tem a ver com esta confusão toda? - perguntarão. Seguramos seres frágeis, vivos, nas nossas mãos. Cabe-nos a nós, decidir como estarão quando as abrirmos.


Seria pouco importante que decidissem pela liberalização do aborto se nós estivessemos conscientes de que seguramos pequenos pássaros vivos nas mãos. E se soubessemos que há muitas formas de encarar uma mesma situação.


Talvez as verbas usadas para promover a liberalização do aborto, pudessem ser usadas no apoio às mães solteiras que muitas vezes abortam porque não vêm forma de sustentar os filhos... Talvez o barco do aborto gratuito pudesse ser transformado em barco do apoio psicológico gratuito a mulheres violadas, ou num programa de protecção a mulheres em ascensão na carreira que decidam ter os seus filhos... Talvez o dinheiro investido pelos media para publicitar esta "guerra" pudesse ser canalizado para a educação sexual que é coisa praticamente inexistente em Portugal. Talvez a sociedade tenha de se reorganizar.


O mais fácil é liberalizar o aborto. Mas, mais bonito seria abrirmos as mãos e deixarmos voar um passarinho vivo.

publicado por hhuuggoo às 11:46
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1 comentário:
De Jorge a 7 de Setembro de 2004 às 11:36
É uma linda história, eu já a conhecia e já a representei em teatro. Digo-te: é espectacular a sua verdade, e a simplicidade que se pode encontrar neste pequeno e singelo conto.
Encontram-se aqui muitas verdades do dia-a-dia, o de nós querermos saber tudo logo de uma vez e não dar tempo ao tempo, quantos de nós por vezes temos uma angustia tão grande de saber o que se vai passar a seguir, e não encontramos resposta... aí começamos a ter conflitos interiores sem razão para os ter. E é tão simples resolver esse problema, resume-se tudo a uma só palavra, CONFIA. È na confiança que reina a sabedoria e daí vem o nosso poder mágico que por muitas vezes ignoramos, o saber utilizar as nossas mãos no devido tempo e espaço. Resta-me agora perguntar:
Terei eu confiança suficiente para falar de alguém k não conheço?
Serei eu capaz de relizar obras de bom grado para com os outros se desconheço as técnicas utilizadas?


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