Domingo, 21 de Novembro de 2004

...que liberdade?

EPL.jpg


(…)
Pois é, a noite trocou-me os sonhos e as mãos
Dispersou-me os amigos
Tenho o coração confundido e a rua é estreita
Estreita em cada passo
As casas engolem-nos
Sumimo-nos.
Estou só num quarto só num quarto só
Com os sonhos trocados
Com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Já não faço nada com vontade!
A minha alma já não acompanha a minha mão
Soletro velhas palavras generosas na esperança de encontrar algum ânimo.
Flor rapariga amigo menino
Irmão beijo namorada
Mãe estrela música
São as palavras soterradas na prisão da minha vida
Isso todas as noites do mundo numa noite só comprida
Num quarto só.


Pedi emprestado ao poeta António Ramos Rosa, algumas linhas deste seu poema. E não lhos pedi para falar de mim… Fi-lo, antes, porque estas linhas me falam pessoas concretas a quem tenho concedido algum do meu tempo e com quem tenho aprendido muitas coisas. A mais importante, é que ser livre não significa apenas “não estar preso”.


Todas as terças-feiras tenho visitado, no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), alguns reclusos que escolheram fazer parte de um programa que visa a libertação da dependência das drogas e uma reinserção social mais sustentada. E, surpreendido porque imaginava a prisão e os presos um mundo completamente diferente, deparei-me com pessoas que podiam muito bem ser os meus amigos de todos os dias. Pessoas que cometeram crimes e que continuam a ser pessoas… a ter sonhos… a ter sentimentos… e a ter medo. Sim, os durões também têm medo. E têm, sobretudo, medo porque sabem que nós não estamos preparados para os recebermos de volta… Vivem sós num quarto sós, muitas noites compridas, à espera de um momento que é tudo o que querem, mas que é também tudo o que mais temem.


Eles sabem que a liberdade é mais do que não estar preso… Eles sabem que, cá fora, nem todas as escolhas estão nas suas mãos. Saem com muitos sonhos, muitos planos de vida nova… e nós, fazemos a escolha por eles: não lhes damos empregos, mudamos de passeio quando passamos por eles e dizemos convictamente que eles nunca vão mudar. Eles, coitados, bem procuram encontrar algum ânimo: procuram apoio, procuram os organismos (in)competentes que o Estado criou para os ajudar(?)… E? Nada… Ninguém pode fazer nada… E eles… pegam nos sonhos, nos planos de vida nova e põem num prato da balança… pegam na conta da renda, da electricidade, da comida, da roupa, da escola e do médico dos filhos e metem no outro prato… E não resta muita escolha… a rua torna-se estreita… e que liberdade? Certamente cá fora serão menos livres do que lá dentro… porque nós fechamos-lhes as opções de escolha…


Talvez seja mais fácil vivermos no nosso mundinho de fantasia e pensar que todos os reclusos têm a barba por fazer, cheiram mal, têm cicatrizes, perderam todos os dentes da frente, usam fatos às riscas e vivem a pensar num plano de fuga… Mas o mais real (e o que faria de nós mais pessoas), seria procurarmos ver a PESSOA por trás de cada recluso… e descobrir o efeito que uma segunda oportunidade pode ter na vida de um homem.


Uma segunda oportunidade que não seja só algo escrito num papel…

publicado por hhuuggoo às 22:27
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