Terça-feira, 31 de Agosto de 2004

Tuala Kumoxi... sempre!

 Nambuangongo.jpg

Quando, em 23 de Novembro de 2003, celebrámos a Missa da Geminação, em que oficializámos o início do nosso projecto, eu estava longe de perceber o que me esperava...


 


Por mais que planeemos, por mais que nos formemos, por mais que ouçamos dizer, não há como chegarmos, instalarmo-nos e começarmos a olhar à nossa volta, para percebermos o que é isto de partir em Missão. E para percebermos que o Missionário nem sempre é o que vem de longe. Que nem sempre é o que vem ensinar mais.


 


Como experiência pessoal, esta Missão veio mudar muitas coisas na minha vida. Acima de tudo, ajudou-me a perceber que é possível, com muito pouco, viver em abundância. A forma como estas pessoas vivem em comunidade, a alegria com que celebram a sua fé são um testemunho de que, talvez, as nossas comunidades estejam mais necessitadas de missionários do que as deles. Deus passou por ali e foi acolhido. Deixou-se ficar...


 


Não é difícil imaginar isso. Basta chegarmos a qualquer comunidade para provarmos o melhor da hospitalidade deste povo. Talvez seja pouco o que têm para dar mas, como a viúva que deu as duas moedas no templo, este pouco é tudo o que têm. E é-nos dado a nós. Não pelo nosso mérito, mas porque estamos em nome da Igreja.


 


Impressionou-me o sentido que têm do serviço e o zelo e empenho que colocam nisso. A começar pelos Catequistas (que escrevo com maiúscula, porque o merecem!) que, muitas vezes, deixaram as suas vidas para nos acompanharem nas visitas a comunidades distantes, mas sem esquecer todos os que participaram nos trabalhos de recuperação da casa onde ficámos, os que nos traziam água e frutas, os que capinaram e decoraram o espaço em torno da Igreja onde celebrámos a Missa em honra de Nossa Senhora da Assunção. Tudo, da mais pequena à mais nobre tarefa, realizado com alegria. Talvez a alegria de quem sabe que Deus também está nas pequenas coisas.


 


É de notar que, depois de mais de trinta anos de guerras sangrentas, depois de passarem grande parte das suas vidas refugiados e sem saberem que futuro esperar, estas pessoas não perderam a esperança em Deus. Confiam que dias melhores virão e sabem-se chamados a participar na mudança. Em todas as comunidades que visitei, senti o forte desejo de recomeçar. O forte empenho de todos em melhorar as condições de vida de todos. Prova disso são as quintas-feiras – o dia em que se juntam e realizam trabalhos em prol da comunidade. Nestas quintas-feiras, vi construir casas, capinar à beira dos caminhos para impedir que com a vinda das chuvas o capim os torne intransitáveis, vi o esforço com que homens e mulheres cortaram à catanada uma enorme árvore que caíra e impedia o acesso ao poço. Vi as crianças trazerem a lenha dessa mesma árvore monte acima. Vi mais de setenta homens e mulheres a cortar metros e metros de capim à volta da Igreja semi-destruída. Vi tantas coisas que, acreditem!, perdem muito da sua cor quando são apenas contadas. É preciso ver. É preciso estar lá para saber que aquela gente trabalha muito e que nem sempre espera colher para si os frutos desse trabalho.


 


A Igreja Católica não é maioritária por aquelas zonas. Mas até nisso há lugar à aprendizagem. É muito raro encontrarmos casos de intolerância religiosa. Por mais de uma vez, os metodistas vieram cantar para nós, associando-se à recepção que os católicos nos preparavam. É que, mesmo os que não são católicos, vêem na chegada da Igreja, uma oportunidade de crescimento humano, social e cultural.


 


Dois dias antes de voltarmos para Luanda, o Marcelino – um miúdo de cerca de 10 anos – pediu-me para ficar. Não sei porquê. Mas sei que tive vontade, muita vontade, de dizer que sim.


 


Foi fácil constatar que a mala que levei carregada de livros, poderia ter ficado abandonada em Lisboa. Posso ler todos os livros e aprender tudo o que há para saber sobre Teologia, sobre Liturgia, sobre Pastoral, sobre a Bíblia e ainda assim posso não saber o que é ser cristão. A maioria das pessoas que encontrei não sabem escrever o nome, mas quase todas poderiam dar-me lições do que é (do que deve ser) viver em Igreja.


 


Não sei quando... mas quero voltar. 


 


Tuala Kumoxi! – Estamos Juntos!

publicado por hhuuggoo às 12:39
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Maria a 2 de Setembro de 2004 às 02:19
Problema nenhum...Pode á vontade,passear ,sugerir e criticar o blog...Será sempre uma crescimento o q vem dos irmãos...E q posso dizer...?? Li com comoção os seus relatos...Tb conheci mais coraçõe prontos a baterem para Moçambique inde entregam as sua férias na totalidade...Nem Algarve,nem discotecas,nem cafés...Dormir não se sabe onde..comer o q há..tomar banho quando calha...mas o sorriso q se recebe torna-se num prémio sem preço...Deus encha de bençãos os caminhos dos passageiros da paz e do amor!!


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
29
30


.posts recentes

. Vida, aventura ousada...

. Um pouco de céu

. O segredo...

. Santo Natal

. A marca...

. A árvore da vida

. ...chegar ao mar!

. Para ser grande, sê intei...

. Vai

. Paixão de Cristo

.arquivos

. Junho 2006

. Abril 2006

. Dezembro 2005

. Outubro 2005

. Agosto 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds